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O Boato
Os contos da Maith
Maith 2009-03-17
Era uma pacata cidadezinha do interior onde todos se conheciam e as amizades e inimizades passavam de gerao a gerao. As mesmas ruas, as mesmas casas comerciais e as mesmas moradias passaram dcadas e dcadas com mnimas transformaes.
A pracinha da Igreja e a prpria Igreja, velha, precisavam de consertos e, o Padre Bento repetia a cada sermo que era preciso colaborar com a reforma da Igreja, mas, nada! A populao era, ou muito pobre, ou muito acomodada. Foi assim at que um dia, um complexo industrial resolveu instalar-se no local. Foi uma festa!
As fbricas precisando de centenas de funcionrios comearam a contratar. Por toda parte via-se o ?Precisa-se? e, a esperana de um bom emprego, de uma vida nova, trouxe at a cidade milhares de candidatos s vagas.
Muita gente foi contratada, a populao da cidade dobrou em pouco tempo e, conseqentemente, aumentaram as moradias, aqueceu-se o comrcio e a cidade mudou de aspecto.
O Padre Bento, felicssimo, conseguiu o dinheiro necessrio para a reforma da Igreja e um industrial doou um carrilho que veio substituir o velho sino de badalo. E, foi ento que surgiu o ?boato?.
- Comadre imagine s o que me contaram! Disseram que h, na cidade, uma quadrilha de ladres de crianas infiltrada entre esse povo que vem de fora procurar emprego.
- Credo! Mas, para que ser que querem as crianas?
- Diz que para mandar para os Estados Unidos para uma clnica de transplantes, para matar e aproveitar os rgos.
- Isso incrvel! Mas, como souberam disso?
- Quem me contou foi a Jlia que disse que a vizinha ouviu no rdio. Disse que j roubaram oito crianas.
E, por ai afora, cada dia ouvia-se um novo boato:
- Foi no Jardim Brasil. Disseram que levaram quatro crianas de l.
- Hoje foi no Parque Santa Rosa. Duas crianas!
- No Bairro da Mexerica entraram em uma casa e levaram o beb.
Ningum acreditava muito, mas ficava uma leve preocupao. Afinal, a vida da cidade andava tumultuada com esse mundo de gente de fora, que ningum conhecia. Da incredulidade inicial, passou-se rapidamente preocupao e, desta, ao medo.
Em pouco tempo, havia uma verdadeira parania generalizada. Os portes no ficavam mais encostados, como outrora, com os vizinhos entrando e saindo sem bater. Passaram a ser fechados com cadeados e os muros foram levantados. As mes comearam a sair com as crianas segurando firme na mo, coisa a que elas no estavam acostumadas.
At ento, a crianada andava livre por toda parte. Jogava bola no meio da rua correndo para a calada quando se aproximava um carro, sempre cauteloso, pois ali estavam seus filhos ou os filhos de seus amigos.
Agora, no podiam mais fazer isso. Com tanta gente estranha, sabe-se l! E com esse boato, ento, todo cuidado era pouco!
E o boato alastrava-se, como erva daninha que ningum sabe como nasceu, mas que no se pode contestar a existncia.
As mes tremiam cada vez que cruzavam com um desconhecido e nunca tantos lhes pareceram to mal-encarados.
As crianas deixavam-se contagiar pela insegurana das mes e tornavam-se arredias e medrosas. No queriam mais brincar nem sair de casa. S queriam ficar agarradas as mes como se s elas pudessem afast-las do perigo.
A frequncia das crianas na Igreja e nas aulas de catecismo diminuiu muito. O Padre Bento, como toda pessoa sensata, sabia que o boato no tinha fundamento, mas, quem podia convencer uma Me disso?
E foi ento, que ele teve uma idia. No sermo de domingo, a Igreja cheia, as mes segurando os filhos, como j se tornara um hbito, ele fez um comovente apelo: Pediu pessoa que tinha inventado aquela mentira que se retratasse. Disse que a sua responsabilidade era muito grande, que aquilo era um pecado mortal, etc..
Foi eloquente e convincente, pois, terminada a Missa o sacristo procurou por ele e confessou:
- Fui eu Seu Padre! Inventei a mentira e Graas a Deus ela pegou bem!
- Como pode dizer isso? Voc cometeu um erro muito grande.
- que, l na minha Terra dizem que quando se coloca um sino novo em uma Igreja a gente deve inventar uma mentira e que quanto mais ela se espalhar, melhor fica o som do sino. Deu certo! O carrilho tem um som muito bonito. Muito melhor do que o do outro sino! Foi o boato! Pode crer!


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