Julin Fuks autor de Histrias de literatura e cegueira (2007) e Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e eu (2004). O mais antigo ganhou o Prmio Nascente da USP, em 2003, e o mais recente foi finalista dos Prmios Jabuti e Portugal Telecom, em 2008.
Histrias de literatura e cegueira um livro difcil de classificar. composto por trs segmentos razoavelmente independentes que traam perfis de escritores (Borges, Joo Cabral e Joyce), a partir de suas literaturas, com o foco em uma caracterstica biogrfica comum a eles: a cegueira. H quem tenha classificado o livro como "ensaios", "contos" ou "romance". Fuks alterna, em seu texto, fico, dados biogrficos e trechos da obra de cada escritor, sem se preocupar em explicitar suas fontes conforme o texto corre.
As duas perguntas a seguir tratam ao mesmo tempo deste livro e de todos os outros textos, publicados em livro ou no, que j li do escritor.
1 - Julin, dois aspectos do seu texto sempre me chamam a ateno. Um deles a variada escolha vocabular e o outro a sintaxe, bastante distinta daquela da lngua cotidiana, com frases longas, inverses e inmeros adjetivos. Para mim, o efeito destes recursos s vezes a sensao de percorrer um mundo arcaico, com requintes que me soam como a construo de um palcio, com seus tapetes, louas, mveis, obras de arte, cortinas, um edifcio que certamente smbolo, na minha imaginao, de um certo passado histrico distante. Por outro lado, o estranho da linguagem funciona tambm como ritual, as frases longas e as inverses sintticas configuram um ritmo um tanto encantatrio que faz com que a leitura flua e me guie em seus labirintos. Me pergunto h algum tempo que inteno pode ter o autor destes textos ao escolher esta escrita, de que maneira esta escolha significa a impresso, no texto, de seu ponto de vista sobre a literatura e sobre o mundo.
Triste seria se a marca do nosso tempo fosse o empobrecimento da linguagem. Se s pudssemos escrever as frases mais banais com as palavras mais banais e todas as outras estivessem interditadas, relegadas ao esquecimento, encarceradas nos dicionrios ou em livros empoeirados. No, para mim o escritor tem de se valer de todos os seus recursos, tem de empenhar todas as suas foras no engenho de sua expressividade. S assim ter alguma chance de arcar, a sim, com o empecilho maior de seu tempo: a suspenso das certezas e a noo de que talvez no se possa expressar mais nada, que talvez j no tenha sentido inventar histrias e cont-las em mais algumas pginas desgastadas. O encanto que se almeja provocar, nesse caso, ou o que eu almejo provocar, o encanto do paradoxo: a linguagem que flui, feita de ritmo, riqueza e sonoridade, e que tenta assimilar o real em sua complexidade, ciente de que o real h de ser sempre inassimilvel.
2 - Muito da literatura que escrita hoje nas grandes cidades brasileiras bastante agressiva e explosiva, revelando, na minha opinio, as grandes tenses existentes no tecido social destes locais. A sua literatura no assim. Seu texto cerebral em vrios nveis, muito menos explosivo quando contraposto tanto cidade quanto ao texto de vrios de seus colegas mais prximos. Talvez pelo hbito de encontr-las sempre vista em certas literaturas, eu procuro as vsceras nos seus textos e s encontro lgica. Esta faceta cerebrina do seu texto so suas vsceras?
Ha, uma idia muito boa, fico agradecido. Se por vsceras se entende aquilo que nos faz sentar em frente tela e pousar os dedos sobre as teclas, no tenho como discordar. O que me impele a escrever a razo, a suspeita de poder construir um objeto parte com sua lgica prpria, e no a emoo decorrente de uma experincia qualquer. Vivo desde sempre em uma cidade grande e de fato vivenciei meus momentos eventuais de violncia, mas por algum motivo eles no me incitaram a escrever nada. Talvez por serem excees, fatos desconexos que pouco se inserem no meu cotidiano. Meu imaginrio se faz mais no interstcio entre os acontecimentos corriqueiros e os debates conceituais, as procuras intelectuais, as idias, os livros.
Terra